domingo, 13 de março de 2011

Amor que se vai

























O Amor que se vai


Por Flávio Gikofate (Psicanalista)

No programa café filosófico o psicanalista desfaz a confusão que normalmente fazemos entre sexo e amor e nos ajuda a entender porque na maioria das fezes não somos felizes para sempre em nosso relacionamento.

Será é possível explicar o que é o amor?

Mais do que explicar esse sentimento será que podemos determinar quando ele nasce e morre?

 Começaremos separando bem claramente o amor do sexo, porque às vezes o amor se vai e o sexo fica ou o inverso o sexo se vai e o amor fica, então é preciso que fique bem claro esses dois aspectos para que não se pense porque o sexo as vezes está criando problemas ou tá complicado, isso já significa forçosamente que o amor não vai indo bem também, ou seja, as pessoas tem uma idéia equivocada que sexo e amor tem sempre que operar em simultaneidade e na realidade muitas vezes se opera em oposição.

O Amor que Nasce

O que é o amor?

O amor eu defino como sendo como o sentimento que a gente tem por aquela pessoa, é muita especifica e muito especial cuja presença provoca em nós a sensação de paz, aconchego e harmonia. Então amor parece que tem haver basicamente com a primeira experiência existencial de todos nós, ou seja, com a experiência uterina. O amor corresponde a um remédio para a dor do desamparo que nasce no momento em que nos nascemos, ou seja, vivemos no útero nos primeiros momentos de nossa existência, de lá saímos depois de meses de aconchego. Aconchego que é o último registro cerebral porque a criança e a mãe com aquele feto dentro do útero vivem uma situação paradisíaca, digamos assim usando a metáfora bíblica, existi depois disso a expulsão do paraíso, que corresponderia então o nosso big bang ou o momento do nascimento. A partir dessa expulsão do paraíso começam a surgir as dores, desconforto, estado subjetivo correspondente ao desamparo, a sensação de desprotecão, insegurança e medo que é exatamente a manifestação visível no rosto de qualquer criança que nasce.

A condição uterina é a condição maravilhosa, é o paraíso e o nascimento é a expulsão do paraíso. É curiosa, mais essa metáfora biblioteca provavelmente reflete muito claramente no que acontece mesmo com cada um de nós. É sempre fascinante para mim repetir isso e perceber de alguma maneira que quem inspirado por divindades ou tenha inscrito isso, descreveu exatamente como começa a vida, ou seja no paraíso e logo depois a expulsão do paraíso e o fim daquela harmonia e o inicio das dores, desconfortos, desamparo e a sensação de que: para que a gente tenha com aquele aconchego uterino precisamos nos acoplar à alguma outra pessoa.

Será mesmo que o amor funciona como remédio para nossa dor de existir? Na sua fase romântica Machado de Assis achava que sim.
“Musa dos olhos verdes, musa alada,Ó divina esperança, Consolo do ancião no extremo alento,E sonho da criança;
Tu que junto do berço o infante cinges C'os fúlgidos cabelos; Tu que transformas em dourados sonhos Sombrios pesadelos;
Tu que fazes pulsar o seio às virgens; Tu que às mães carinhosas enches o brando, tépido regaço Com delicadas rosas;
Casta filha do céu, virgem formosa do eterno devaneio, sê minha amante, os beijos meus recebe, acolhe-me em teu seio!
Já cansada de encher lânguidas flores com as lágrimas frias, a noite vê surgir do oriente a aurora dourando as serranias.
Asas batendo à luz que as trevas rompe, piam noturnas aves, e a floresta interrompe alegremente os seus silêncios graves.
Dentro de mim, a noite escura e fria melancólica chora; rompe estas sombras que o meu ser povoam;

Musa, sê tu a aurora!”

(Musa dos Olhos verdes de Machado de Assis)

Visto desse ângulo o amor é sempre um fenômeno interpessoal, ou seja, depende da existência de uma outra pessoa, uma outra pessoa muito especifica e especial , não é uma pessoa qualquer é aquela pessoa.

O amor é parte de um prazer que o filosofo Arthur Shopenhauer ( 1788- 1860) chamava de prazer negativo, ou seja, é um remédio para a sensação desagradável de desamparado, quer dizer, é a sensação agradável ou o prazer que deriva do fim da dor do desamparo. O aconchego é o remédio para o desamparo.

O amor tem na vida adulta, adulta sempre entre aspas, porque o amor adulto ele tem características muito infantis. No amor adulto ele tem a substituição, sai à mãe e entra outros objetos, cada vez um, que dizer, são objetos e amor muito indefinidos, porém o mais importante é entender que este objeto adulto ele representa o mesmo fenômeno o mesmo papel, aconchego e remédio para o desamparo para sensação de incompletude, por tanto, continua sendo prazer negativo, continua sendo absolutamente necessário aonde existe uma dependência muitas vezes de possessividade e ciúmes. Diga-se de passagem, o ciúme é uns dos fenômenos que pode desgastar seriamente a relação afetiva, mas essas características mais imaturas do amor infantil costuma-se dar presentes integralmente no chamado amor adulto ou amor romântico adulto.Os casais que se amam costumam se chamar por palavras que são todas típicas do jeito que a gente trata os bebezinhos , então é tudo fofinho, benzinho , todo mundo faz biquinho para falar um com o outro, o vocabulário é extremamente limitado e parecido com aquilo que qualquer bebezinho falaria se soubesse falar para a mãe.

Quando nasce o sexo?

O sexo se manifesta primeiramente por volta dos 9 a 10 meses de idade. Exatamente quando a criança começa a descobrir que ela e a mãe não são a mesma criatura, ela começa a pesquisar e conhecer o próprio corpo começa a especular o mundo todo a sua volta e dentre essas especulações inclui o próprio corpo. Nessa pesquisa a criança acaba descobrindo partes do corpo cujo toque provoca nela uma sensação de inquietação e muito agradável, ou seja, o sexo é excitação, prazer positivo e pessoal, o amor é paz, prazer negativo e interpessoal, ou seja, as pessoas até hoje usa a expressão fazer amor. Amor não se faz, amor se sente e sexo se pratica.

“Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus – ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.”

(Arte de Amar de Manuel Bandeira)

O fenômeno amoroso às vezes ele ate atrapalha o sexo. É curioso falar isso, mas nas historias de paixão quando surge aquele encantamento muito forte entre duas pessoas muito freqüentemente os homens têm muita dificuldade sexual e as mulheres ficam meias perplexas com isso, porque talvez não seja o fenômeno que acontece com elas, ma os homens se atrapalham muito quando tentam juntar o sexo com amor. Então não é raro, por exemplo, casais que se dão mal ou não estão tão bem sentimentalmente, mas estão com a vida sexual boa ou vice versa.

“João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.”

(quadrilha de Carlos Drummond de Andrade)

nessa quadrilha de casais desencontrados de Drummond quais seriam os motivos dos amores e dos não amores? São as semelhanças ou as diferenças que nos atraem?
Na vida adulta surge o desejo visual masculino a partir da puberdade, ou seja, sobra a idéia que o sexo não tem uma correlação tão direta com o amor e às vezes entra ate em oposição, Por exemplo, quando um casal tem uma vida sexual legal à mulher tem o tipo mais generoso e o homem mais egoísta, sendo que mais de 90% se dão de pessoas bastantes diferentes, o homem egoísta são os homens tipo garanhão não muito confiáveis porém bem atraentes para as mulheres boas, a relação desse tipo de homem com as mulheres generosas geralmente não tem nenhum tipo de problemas sexual, já a relação de mulheres egoístas com esse tipo de homem tem mais problemas, pois a mulher egoísta não se doam facilmente, somente quando elas querem , com isso os homens egoístas se sente humilhados, e acabam melhorando cada vez mais suas atitudes para que a mulher seja mais generosa, porém ela acaba dificultando mais ainda. Esse tipo de mecanismo mostra que, aqueles que amam mais intensamente, são os generosos tanto o homem quanto a mulher, são mais dedicados sexualmente quando curiosamente o parceiro é egoísta. Porque, se houver uma aliança de uma mulher generosa e um homem generoso a coisa se complica, curiosamente e até chocante a maioria doa casais que se dão bem tem uma vida sexualmente pobre.

Escolher ou ser escolhido

A escolha do objeto adulto que vai substituir a mãe, se da segundo o critério de admiração, o amor deriva da admiração. Essa era a maneira como já descrevia o filosofo Platão (428/427 – 348/347) no banquete no século V antes de cristo, ele tinha real e toda razão.

O amor nasce da admiração, mas será que admiramos aquilo em especial o eu ou o outro que tem aquilo que não encontramos em nós?

No amor a escolha do objeto independe da admiração, o problema e que esse critério de admiração pode se modificar com o passar do tempo. Isso é umas das variáveis que pode levar o fenômeno amoroso ao colapso da relação, por exemplo, eu sou o menino tímido, desajeitado, com vergonha e com dificuldade no trato social, ele admira o oposto dele, quanto mais baixa a auto-estima maior a tendência em admirar o oposto. com o passar do tempo, ao conhecer os defeitos e as características próprias da pessoa, às vezes falta de sinceridade e agressividade, ou seja, ao ver os pontos fracos, pode vir a deixar de admirar esse personagem. Com o passar dos anos passa a admirar o seu próprio jeito de ser. Nesse momento se perde a admiração pelo oposto e o amor cai junto. Esse processo é curioso, porque o sentimento amoroso vai despencar pela mesma razão que um dia ele subiu, ou seja, eu vou me desencantar pelas mesmas razoes que um dia eu me encantei, a separação vai acontecer pelos mesmos motivos que um dia os levaram a casar.

Outras vezes a perda de admiração não se da apenas por esse motivo, mas com o passar dos anos um dos dois, Por exemplo, evoluem intelectualmente, socialmente ou mesmo profissional e financeiramente e um dos dois não acompanha e fica aquém do outro indivíduo, isso também influencia para o fim da admiração. Outras vezes acontece pelo fato de ao longo dos anos pode acontecer também das pessoas ter projetos de vida discrepante, tanto no profissional, como religiosos também, as vezes a pessoa muda de religião e passa a ter um certo radicalismo naquela religiosidade e causa uma discrepância muito grande, isso porque um dos dois mudou de posição a um assunto, que é absolutamente relevante para o cotidiano das pessoas porque muda o estilo de vida. Muitos outros problemas também podem desgastar a relação, como a educação dos filhos, brigas por dinheiro. O amor não resiste a qualquer tipo de contratempo, o amor tem que ser tratado de uma maneira muito delicado, porque acabou a admiração o problema sentimental se vai.

No momento da separação, a dor da ruptura não é a dor da solidão, a dor da solidão é o que vem depois, depois que o individuo se acomodou e se acostumou com o estar sozinho. Na nossa sociedade os homens e as mulheres não são treinados para a solidão, na Europa é diferente, geralmente os filhos saem cedo de casa, vão viver em republica, na faculdade, já aqui não, temos a mania de ficar aninhando nossos filhos até que ele se case , ou seja devemos aprender a lidar com a solidão e também com as experiências dos relacionamentos.


2 comentários:

  1. Eu vi todos os vídeos do Flávio Gicovate das palestras na CPFL. Tipo, meu guru nesta área de relacionamentos. Além de 'Amor que se vai' tem também uma série de 4 vídeos que são: 1. A felicidade depende do auto-conheciemnto; 2. A importância do amor e das amizades; 3. Os importantes prazeres positivos e 4. A vaidade e o medo da felicidade. Tem também 'Amor nos tempos longevos', 'Amar se aprende sendo amado', 'O amor é uma coisa que se aprende', 'Intelig^encia emocional' e outro que eu não lembro o nome... Esses são os que eu conheço e super recomendo a TODOS. Flávio Gikovate mudou minha visão de relacionamentos, agora entendo como as coisas acontecem e quando isso ocorre qualquer pessoa consegue lidar muito melhor com as questões diárias. Sabe a expressão 'Freud explica', pra mim é 'Flávio Gikovate explica'! Boa semana. Besos!

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  2. Ia esquecendo... A série de quatro vídeos que eu coloquei acima explica de uma forma mais completa toda a teoria do Flávio Gikovate. Todos os outros são meio que resumo do que é trabalhado na série, claro que com abordagens diferentes e dinâmicas!

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